Lanchonete

Paim, o toque final

*Aquarela por Thiago Gonçalves mostrando vistas laterais do Demoiselle e o 14 Bis, assim como aviões ‘imaginados’ na faixa lateral do 14 Bis.

 

De 2013-2017, Lanchonete.org foi uma plataforma cultural conduzida por artistas, focada em como pessoas vivem e trabalham, navegam e compartilham a cidade contemporânea, tendo São Paulo como panorama. O nome vem dos onipresentes balcões das lanchonetes — pontos de comércio amigáveis, sem barreiras, laboriosos e com suas luzes brancas — que ocupam todas as esquinas da cidade. Em 2016 o coletivo comprou uma pequena lanchonete (Bar do Tarcísio, Loja 3) na base do 14 Bis, um dos três edifícios—incluindo Demoiselle e Caravelle— que compõem o Conjunto Santos Dumont. Foi assim que começamos a primeira fase do projeto, é de desenvolver um relacionamento especial com os mais de 4000 moradores do Conjunto Santos Dumont, e de entender melhor o Bixiga, bairro histórico onde o conjunto está localizado … ao virar um dono de uma lanchonete.

O Conjunto Santos Dumont, finalizado em 1956, primeiro virou um enclave regional nordestino. A maioria dos moradores vem do estado do Piauí. Em algum momento nos anos 90, com o desinvestimento geral na bacia ’14 Bis / 9 de Julho’, a rua interna sem saída do Conjunto Santos Dumont virou um ‘beco de drogas’ e a região era conhecida como uma ‘pequena cracolândia.’ Se podia andar até o final da rua interna entre o 14 Bis e o Demoiselle, na entrada do Caravelle, para comprar maconha, cocaína, etc., um mercado que existe até hoje. Uma cerca separa o beco sem saída de um pátio dentro da propriedade oficial do Edifício Caravelle, onde crianças brincam e mães se encontram para conversar. Tomando em conta seu tamanho—499 apartamentos, 4000+ moradores— é discutível que o Conjunto Santos Dumont seja o segundo edifício mais relevante ao período modernista de São Paulo, depois do Edifício Copan de Niemeyer. E mesmo assim, até recentemente—e para alguns, ainda hoje —entrar no Conjunto Santos Dumont foi considerado ‘perigoso.’ Durante as últimas décadas uma grande percepção/’nuvem carregada’ se desenvolveu sobre os edifícios do Conjunto Santos Dumont, condenando seu comércio de drogas, e confundindo suas origens. Enquanto a vizinhança passa por uma gentrificação e o tráfico de drogas diminui, o preconceito a se suspender. Lanchonete.org usa suas intervenções conceituais e no ambiente construído como ‘cunhas suaves’ que ajudam a manter a abertura dos espaços públicos do Conjunto a um ritmo que faça sentido (ou que sinta bem) para os moradores cautelosos, pessoas que antes ficavam a maior parte do tempo em casa do lado de dentro, para evitar encontros com os traficantes e/ou ter seus filhos se juntarem ao tráfico. Com o florescimento desses espaços e práticas públicas, também florescem o orgulho do local e de expressões da cultura nordestina.

Logo antes de ocorrer o COVID-19 e da cidade inteira fechar, nós começamos um projeto de mural com o artista guatemalteca que estava de visita, Edgar Calel, no pátio do Caravelle. Isso foi um projeto colaborativo que também incluiu Abdoulaye Guibila, Fernando Pereira dos Santos, e o coletivo de arquitetura e planejamento urbano, Margem. O nome do conjunto, dado pelo arquiteto original, Aron Kogan, provém do inventor Alberto Santos-Dumont, e os edifícios dos aviões que ele inventou. Os ‘toques finais’ serão uma instalação LED de grande escala, retratando os aviões do Santos-Dumont na faixa lateral do Edifício 14 Bis, um trabalho concebido pelo artista Thiago Gonçalves. Alguns motivos do design serão reconhecíveis na parte final do mural no pátio do Caravelle, a na eventual instalação LED. Nós antecipamos a finalização deste trabalho até o ‘Centenário da Semana de Arte Moderna,’ em 2022.

 

 

  

Desenho formal do Conjunto Santos Dumont, completado em 1956 pelo arquiteto modernista Aron Kogan.

 

        

Versão do cronograma original de cinco anos do projeto Lanchonete.org, sobreposto no Conjunto Santos Dumont pelo artista Thiago Gonçalves.

 

      

Vista do Demoiselle e 14 Bis.

 

    

Vista para dentro do Bar do Tarcísio (Loja 3, Edifício 14 Bis), uma lanchonete tradicional, aberta há quatro décadas.

 

 

Proposta do artista guatemalteca Edgar Calel para o mural no pátio do Edifício Caravelle.

 

    

A primeira parte do muro foi pintada pelo Edgar e por jovens do edifício, uma maneira interativa de começar o processo de quatro semanas.

        

  

Na semana seguinte, Lanchonete.org e Edgar Calel conversaram com os ‘utilizadores do pátio’ para aperfeiçoar uma estética desejada para o muro.

 

           

O síndico do Edifício Caravelle, Paulo, esteve ao nosso lado, participando do projeto inteiro. Ele pintou o muro de trás inteiro em branco,  e pediram que nós fizéssemos um ‘meio mural’ primeiro para ter certeza que todos gostam do visual.

     

   

Pela aclamação, pudemos continuar na semana seguinte, quando uma segunda cena (um lago vulcânico na Guatemala) foi adicionada à primeira (uma cena de praia brasileira).

 

    

Terminamos logo antes de uma chuva forte.

 

   

O muro adjacente era obviamente fora dos nossos limites no início; não o pintaram de branco para o nosso projeto, por mais que tenhamos oferecido de incluí-lo.

 

     

 Logo depois do mural de Edgar Calel’s mural terminar, Paulo chamou sua equipe de manutenção para pintar de branco o muro adjacente. Fomos oficialmente convidados para terminar o último muro (de 25 metros de largura e 3.5 de altura), logo que aconteceu o COVID-19.

 

   

Essa parede se conecta com uma pintura, caricaturas do time de futebol preferido no conjunto.

 

       

Vista da entrada pela rua interna; o edifício ladrilhado à esquerda é o Demoiselle e o Bar do Tarcísio (lanchonete) está à direita, no térreo do 14 Bis. *

 

   

Uma equipe triunfante.

 

  

 

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